
Um susto.
Até pareceu que desta vez ela iria embora.
O que poderia eu fazer se isso me acontece?
Nada.
E é assim.
Assim será um dia.
Posso lidar apenas com o que é meu, ou melhor, com quase tudo o que é meu.
Corremos desenfreadamente nessa loucura em que vivemos, passando por tudo que vemos, em busca de algo que queremos, e que provavelmente nunca teremos.
As pessoas ao nosso lado, sempre presentes em intento, pensamento, julgamento... todos sujeitos ao fim, a qualquer hora e lugar, pois como dizia Raul, "eu não sei em que esquina ela (A MORTE) vai me beijar".
A morte, essa grande professora, está sempre ao nosso lado. Guerreiros corajosos os que lidam com ela a todo momento; como se não houvesse nenhum outro, como se esse fosse (e é) o único momento restante de suas vidas.
Não há futuro.
O futuro é uma mera ilusão, que virá a ser ou não.
Quando corremos para o futuro, ele também corre de nós. Na mesma velocidade, com a mesma vontade, de estar sempre à frente.
Pois quando um novo dia amanhece, ele já é o hoje. E assim o é desde sempre.
Nunca vivemos em outro tempo que não fosse este, o hoje, o agora.
O Presente, é verdadeiramente a única coisa que há para os guerreiros (que somos todos nós).
E a partida, pode acontecer a qualquer momento.
Não precisamos programar a viagem, pois ela já planejou a hora do viajante.
A lei de harmonia cósmica que funciona para todos, conhecedores ou não, crentes ou não nesta força, coloca tudo em seu devido lugar, na hora e local, ou melhor, - colocando abaixo essa lógica sistemica de aprisionamento mental da sociedade do capital - no tempo e espaço exatos.
Tudo em seu devido lugar.
Tudo está onde deve estar.
Cada um atrai aquilo que merece.
A família que merece, os amigos que merece, o emprego que merece, a felicidade que merece, a paz que merece, os recursos financeiros e modos de sobrevivência que merece.
No mais, somos merecedores daquilo que somos neste mundo.
E voltaremos para casa, conscientes e plenos, apenas quando formos merecedores.
Enquanto isso, a morte nos aguarda em cada beco, cada esquina, cada passo, cada respirar, esperando o momento de nos passar a próxima lição. Para passarmos por aqui quantas vezes mais forem necessárias, ou para encontrar a tão sonhada eternidade.
Nenhum laço sanguíneo ou afetivo pode ser egoísta ao ponto de esquecer da "individualidade coletiva" que são os caminhos de cada um de nós.
Para viver, é preciso aprender a morrer, é preciso aprender a deixar que os outros morram.
Bruno
Canto Para Minha Morte
Raul Seixas
Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
....
Um comentário:
Oii Bruno, realmente: "tudo vem pelo merecimento" e depende de nós plantarmos as sementes sãs pra colher frutos sãos. E a morte não sabemos quando chega, nem sempre é fácil de lidar mas inevitável de chegar. E que bons frutos plantamos nessa terra fértil de nosso espírito! =)
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